Salamano Watch III

(…)

De longe, distingui na soleira da porta o velho Salamano, com um ar agitado. Quando nos aproximamos, reparei que não estava com o cão. Olhava para todos os lados, dava voltas em torno de si mesmo, tentava penetrar com os olhos na escuridão do corredor, resmungava palavras sem nexo e recomeçava a observar a rua com seus olhinhos avermelhados. Quando Raymond lhe perguntou o que havia, não respondeu logo. Ouvi vagamente que ele murmurava: “imundo, nojento” e continuava a agitar-se. Perguntei-lhe onde estava o cão. Respondeu-me bruscamente que fora embora. E, depois, de repente, falou de novo, rápido:

-Levei-o, como de costume, ao Campo de Manobras. À volta das barracas da feira, havia muita gente. Parei para olhar o Rei da Evasão. E, quando quis ir embora, ele já não estava mais lá. Há muito tempo que eu queria comprar uma coleira menor. Mas nunca pensei que esse cão nojento fosse embora assim.

Raymond explicou-lhe, então, que o cão possivelmente se perdera e que voltaria. Citou-lhe vários exemplos de cães que tinham percorrido dezenas de quilômetros para encontrar o dono. Apesar disso, o velho ficou ainda mais agitado.

-Vão tomá-lo de mim, compreende. Pelo menos se alguém o recolhesse… Mas não! Com aquelas feridas enoja todo mundo. A carrocinha vai apanhá-lo, tenho certeza.

Eu lhe disse então que se dirigisse ao depósito de cães e que ele o devolveria, mediante o pagamento de alguma taxa. Perguntou-me se era muito caro. Eu não sabia. Então, irritou-se:

-Dar dinheiro por aquele cão nojento? Ah, ele que se dane! – E pôs-se a xingá-lo.

Raymond riu e entrou na casa. Segui-o. Despedimo-nos no corredor. Pouco depois, ouvi os passos do velho e ele bateu à porta. Quando abri, ficou uns momentos na entrada.

-Desculpe, desculpe – disse-me ele.

Convidei-o a entrar, mas ele não quis. Olhava para as pontas dos sapatos e as mãos cheias de crostas tremiam. Sem me encarar, perguntou-me:

-Não vão tirá-lo de mim, não é, Sr. Mersault? Vão devolvê-lo, não vão? Senão, o que vai ser de mim?

Expliquei-lhe que os cães ficavam durante três dias no depósito, à disposição dos donos, e que, depois disso, faziam deles o que bem entendiam. Olhou para mim em silêncio. Depois, disse:

-Boa-noite.

Fechou a porta, e eu o ouvi andar de um lado para o outro. A cama dele rangeu. E, pelo estranho barulho que atravessou a parede, compreendi que estava chorando. Não sei por que, pensei na minha mãe. Mas no dia seguinte, precisava levantar-me cedo. Não tinha fome e deitei-me sem jantar.

(…)

One Response to “Salamano Watch III”

  1. Luciano Pill Says:

    A fonte não vem junto? Fiquei curioso sobre de quem é esse texo.

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