Salamano Watch IV

À porta de casa, encontrei o velho Salamano. Convidei-o a entrar e ele me informou que o cão se perdera, pois não estava no depósito. Os empregados haviam-lhe dito que talvez fora atropelado. Perguntara se não era possível sabe-lo nas delegacias de polícia. Tinham-lhe respondido que não tomavam nota de coisas como essas, pois aconteciam todos os dias. Disse ao velho Salamano que poderia arranjar outro cão, mas ele me respondeu, com toda a razão, que estava habituado àquele.

Eu estava sentado na cama, e Salamano, numa cadeira diante da mesa. Estava de frente para mim e tinha as mãos sobre os joelhos. Conservava o velho chapéu na cabeça. Sob o bigode amarelecido, mastigava pedaços de frases. Ele me entediava um pouco, mas eu não tinha nada que fazer, e não estava com sono. Para dizer-lhe alguma coisa, fiz-lhe perguntas sobre o cão. Disse-me que o recebera depois da morte da mulher. Casara-se bastante tarde. Na juventude, tivera vontade de fazer teatro; na tropa, representara em vários espetáculos militares. Mas acabara entrando para a estrada de ferro e não se arrependia, pois agora davam-lhe uma pequena aposentadoria. Não fora feliz com a mulher, mas, no todo, habituara-se a ela. Quando ela morreu, sentira-se muito só. Pedira, então, a um colega de escritório que lhe desse um cão, e fora-lhe oferecido este, ainda muito novo. Tivera que o alimentar com mamadeira. Mas, como o cão vive menos que o homem, tinham acabado por envelhecer juntos.

-Tinha mau genio – disse Salamano. – De vez em quando, brigávamos. Mas, apesar disso, era um bom cão.

Quando lhe falei que o cão era de boa raça, Salamano ficou com um ar contente.

-E, olhe – acrescentou – não o conheceu antes da doença. O pelo era o que tinha de mais bonito.

Todas as noites e todas as manhãs, desde que o cão pegara aquela doença de pele, Salamano passava pomada nele. Mas, na sua opinião, a sua verdadeira doença era a velhice, e velhice não se cura.

Nesse momento, bocejei, e o velho anunciou que ia embora. Observei-lhe que podia ficar e que eu estava aborrecido com o que acontecera ao cão. Disse-me que mamãe gostava muito do cão. Ao falar dela, chamava-a de “sua pobre mãe”. Emitiu a opinião de que eu devia sentir-me muito infeliz desde que a minha mãe morrera, e eu nada respondi. Acrescentou então, muito depressa e com um ar sem jeito, que no bairro me tinham criticado por mandá-la para o asilo, mas ele me conhecia e sabia que eu gostava muito de mamãe. Respondi, nao sei ainda por que, que ignorava até o momento que me julgassem um mau filho por causa disso, mas que o asilo me parecera uma coisa natural, pois não tinha recursos para mante-la comigo.

-Além disso – acrescentei – há muito tempo que ela não tinha assunto algum para conversar comigo e se entediava sozinha.

-Sim – concordou ele – e no asilo, pelo menos, arranjam-se amigos.

Depois, despediu-se. Queria dormir. Sua vida agora mudara completamente, e não sabia muito bem o que ia fazer. Pela primeira vez, desde que o conhecia, estendeu-me a mão num gesto furtivo, e eu senti as escamas da pele. Sorriu um pouco e, antes de sair, disse:

-Espero que os cães nao ladrem essa noite. Acho sempre que é o meu.

2 Responses to “Salamano Watch IV”

  1. Luciano Pill Says:

    O que, diabos, é isso?

  2. mir Says:

    Camus.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: