Archive for the ‘Salamano Watch’ Category

Salamano Watch IV

January 27, 2010

À porta de casa, encontrei o velho Salamano. Convidei-o a entrar e ele me informou que o cão se perdera, pois não estava no depósito. Os empregados haviam-lhe dito que talvez fora atropelado. Perguntara se não era possível sabe-lo nas delegacias de polícia. Tinham-lhe respondido que não tomavam nota de coisas como essas, pois aconteciam todos os dias. Disse ao velho Salamano que poderia arranjar outro cão, mas ele me respondeu, com toda a razão, que estava habituado àquele.

Eu estava sentado na cama, e Salamano, numa cadeira diante da mesa. Estava de frente para mim e tinha as mãos sobre os joelhos. Conservava o velho chapéu na cabeça. Sob o bigode amarelecido, mastigava pedaços de frases. Ele me entediava um pouco, mas eu não tinha nada que fazer, e não estava com sono. Para dizer-lhe alguma coisa, fiz-lhe perguntas sobre o cão. Disse-me que o recebera depois da morte da mulher. Casara-se bastante tarde. Na juventude, tivera vontade de fazer teatro; na tropa, representara em vários espetáculos militares. Mas acabara entrando para a estrada de ferro e não se arrependia, pois agora davam-lhe uma pequena aposentadoria. Não fora feliz com a mulher, mas, no todo, habituara-se a ela. Quando ela morreu, sentira-se muito só. Pedira, então, a um colega de escritório que lhe desse um cão, e fora-lhe oferecido este, ainda muito novo. Tivera que o alimentar com mamadeira. Mas, como o cão vive menos que o homem, tinham acabado por envelhecer juntos.

-Tinha mau genio – disse Salamano. – De vez em quando, brigávamos. Mas, apesar disso, era um bom cão.

Quando lhe falei que o cão era de boa raça, Salamano ficou com um ar contente.

-E, olhe – acrescentou – não o conheceu antes da doença. O pelo era o que tinha de mais bonito.

Todas as noites e todas as manhãs, desde que o cão pegara aquela doença de pele, Salamano passava pomada nele. Mas, na sua opinião, a sua verdadeira doença era a velhice, e velhice não se cura.

Nesse momento, bocejei, e o velho anunciou que ia embora. Observei-lhe que podia ficar e que eu estava aborrecido com o que acontecera ao cão. Disse-me que mamãe gostava muito do cão. Ao falar dela, chamava-a de “sua pobre mãe”. Emitiu a opinião de que eu devia sentir-me muito infeliz desde que a minha mãe morrera, e eu nada respondi. Acrescentou então, muito depressa e com um ar sem jeito, que no bairro me tinham criticado por mandá-la para o asilo, mas ele me conhecia e sabia que eu gostava muito de mamãe. Respondi, nao sei ainda por que, que ignorava até o momento que me julgassem um mau filho por causa disso, mas que o asilo me parecera uma coisa natural, pois não tinha recursos para mante-la comigo.

-Além disso – acrescentei – há muito tempo que ela não tinha assunto algum para conversar comigo e se entediava sozinha.

-Sim – concordou ele – e no asilo, pelo menos, arranjam-se amigos.

Depois, despediu-se. Queria dormir. Sua vida agora mudara completamente, e não sabia muito bem o que ia fazer. Pela primeira vez, desde que o conhecia, estendeu-me a mão num gesto furtivo, e eu senti as escamas da pele. Sorriu um pouco e, antes de sair, disse:

-Espero que os cães nao ladrem essa noite. Acho sempre que é o meu.

Salamano Watch III

July 23, 2009

(…)

De longe, distingui na soleira da porta o velho Salamano, com um ar agitado. Quando nos aproximamos, reparei que não estava com o cão. Olhava para todos os lados, dava voltas em torno de si mesmo, tentava penetrar com os olhos na escuridão do corredor, resmungava palavras sem nexo e recomeçava a observar a rua com seus olhinhos avermelhados. Quando Raymond lhe perguntou o que havia, não respondeu logo. Ouvi vagamente que ele murmurava: “imundo, nojento” e continuava a agitar-se. Perguntei-lhe onde estava o cão. Respondeu-me bruscamente que fora embora. E, depois, de repente, falou de novo, rápido:

-Levei-o, como de costume, ao Campo de Manobras. À volta das barracas da feira, havia muita gente. Parei para olhar o Rei da Evasão. E, quando quis ir embora, ele já não estava mais lá. Há muito tempo que eu queria comprar uma coleira menor. Mas nunca pensei que esse cão nojento fosse embora assim.

Raymond explicou-lhe, então, que o cão possivelmente se perdera e que voltaria. Citou-lhe vários exemplos de cães que tinham percorrido dezenas de quilômetros para encontrar o dono. Apesar disso, o velho ficou ainda mais agitado.

-Vão tomá-lo de mim, compreende. Pelo menos se alguém o recolhesse… Mas não! Com aquelas feridas enoja todo mundo. A carrocinha vai apanhá-lo, tenho certeza.

Eu lhe disse então que se dirigisse ao depósito de cães e que ele o devolveria, mediante o pagamento de alguma taxa. Perguntou-me se era muito caro. Eu não sabia. Então, irritou-se:

-Dar dinheiro por aquele cão nojento? Ah, ele que se dane! – E pôs-se a xingá-lo.

Raymond riu e entrou na casa. Segui-o. Despedimo-nos no corredor. Pouco depois, ouvi os passos do velho e ele bateu à porta. Quando abri, ficou uns momentos na entrada.

-Desculpe, desculpe – disse-me ele.

Convidei-o a entrar, mas ele não quis. Olhava para as pontas dos sapatos e as mãos cheias de crostas tremiam. Sem me encarar, perguntou-me:

-Não vão tirá-lo de mim, não é, Sr. Mersault? Vão devolvê-lo, não vão? Senão, o que vai ser de mim?

Expliquei-lhe que os cães ficavam durante três dias no depósito, à disposição dos donos, e que, depois disso, faziam deles o que bem entendiam. Olhou para mim em silêncio. Depois, disse:

-Boa-noite.

Fechou a porta, e eu o ouvi andar de um lado para o outro. A cama dele rangeu. E, pelo estranho barulho que atravessou a parede, compreendi que estava chorando. Não sei por que, pensei na minha mãe. Mas no dia seguinte, precisava levantar-me cedo. Não tinha fome e deitei-me sem jantar.

(…)

Salamano Watch II

July 9, 2009

(…)

Levantei-me, Raymond deu-me um forte aperto de mão, dizendo-me que, entre homens, a gente sempre se entende. Ao sair da casa dele, fechei a porta e fiquei um momento no corredor escuro. A casa estava calma e, das profundezas da escadaria, subia um sopro úmido e obscuro. Fiquei imóvel. Mas, no quarto do velho Salamano, o cão gemeu surdamente.

(…)

Salamano Watch

April 21, 2009

(…)

Ao subir, esbarrei na escada escura com o velho Salamano, meu vizinho de andar. Estava com o seu cachorro. Há oito anos que são sempre vistos juntos. O cocker-spaniel tem uma doença de pele, acho que é sarna, que o fez perder todo o pelo e que o cobre de placas e de crostas marrons. De tanto conviverem juntos os dois, num pequeno quarto, o velho Salamano acabou ficando parecido com o cão. Tem crostas avermelhadas no rosto e o cabelo amarelo e ralo. Quanto ao cão, esse assimilou do dono uma espécie de aspecto encurvado, o focinho para a frente e o pescoço esticado. Parecem ser da mesma raça e, no entanto, detestam-se. Duas vezes por dia, as 11 e as 6 horas, o velho leva seu cão para passear. Há oito anos que não mudam de itinerário. Podem-se ve-los por toda a Rua de Lyon, o cão puxando pelo homem até o velho Salamano tropeçar. Então, ele bate no cachorro e o xinga. o cão rasteja de medo e se deixa arrastar. Neste momento, é a vez de o velho puxar. Quando o cão se esquece, torna a arrastar o dono e é outra vez surrado e xingado. Ficam, então, os dois na calçada, e se olham: o cão, com terror, o homem, com ódio. É assim todos os dias. Quando o cão quer urinar, o velho não lhe dá tempo e o puxa, e o cocker-spaniel vai deixando atrás de si um rastro de pequenas gotas. Se, por acaso, o cão faz no quarto, também apanha. Isso dura a oito anos. Céleste diz sempre que “é uma desgraça”, mas, no fundo, ninguém pode saber. Quando eu o encontrei na escada, Salamano estava indignado com o cão. Ele lhe dizia: “Imundo! Nojento!” Eu o distinguia, curvado sobre o animal, arrumando alguma coisa na coleira. Falei mais alto. Então, sem se virar, respondeu-me com uma espécie de raiva contida:
-É ele não me larga. – Depois, foi embora, puxando o animal que se deixava arrastar, e gania. 

(…)